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domingo, 28 de setembro de 2008

A Crônica de Hoje

Fomos ao cinema ver o filme Ensaio sobre a Cegueira do Fernando Meirelles, adaptação da obra de José Saramago. Eu me sentia estimulado desde a reportagem em que Meirelles estava no cinema ao lado de Saramago em lágrimas, imediatamente após a projeção do filme em versão definitiva, depois de Cannes. A vontade de ver dois autores em linguagens irmãs, a escrita e a cinematográfica, ambas dependentes da visão, tratando da cegueira, essa endemia que nos ameaça a todos, talvez tenha sido mais forte que tudo, uma forma de resistir ao que não tem vacina, a estupidez.

A diferença da endemia de estupidez que permanece em grau mais ou menos constante afetando a sociedade, o ensaio do livro e do filme é uma epidemia de cegueira, em que quase todos perdem a visão subitamente, sem nenhum sinal prévio e passam a "ver" branco leitoso, diferente da amaurose em que a vista escure totalmente. A barbárie toma conta, como nas diversas situações em que a humanidade se mete sem necessidade de uma epidemia de cegueira. Então, parece que o método da redução ao absurdo, de levar quase todos a não ver, cegos absolutos , é para mostrar que precisamos ver as coisas que estão claras à nossa vista. Ao fim é um libelo à vida, na esperança de que a humanidade, talvez, se enxergue um dia!

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

A Crônica de Hoje

Setembro é a primavera no Hemisfério Sul, a estação das flores que significam a esperança de renovação da natureza, época da semeadura natural ou feita pela humanidade para gerar novos frutos. Setembro é o outono no Hemisfério Norte, quando os frutos já maduros são colhidos. Tanto ao Sul como ao Norte, não é isso que estamos assistindo. Aqui no meridiano, a Bolívia se encontra sob tensão contando os mortos das últimas refregas entre apoiadores e opositores do Presidente Evo Morales, 35 anos depois do bombardeio de La Moneda com a morte de Salvador Allende e a instalação da ditadura mais dura dos últimos tempos. No setentrião a crise econômica desnorteia a todos, inclusive os candidatos a presidente na maior economia do mundo, com reflexos para o mundo inteiro. Tomara que Evo Morales seja bem sucedido nas negociações que vem tentando com os seus antagonistas e que os americanos encontrem o equilíbrio econômico e político. Que a primavera seja benfaseja, tanto ao Norte como ao Sul!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A Crônica de Hoje

A 20 dias do pleito, continua a campanha pelas eleições de prefeitos e vereadores. A considerar o que prometem, não teremos falta de mais nada, especialmente na saúde. Os que estão no poder, demonstram o muito que já fizeram e o que ainda falta fazer, uma das razões mais importantes de sua candidatura, na linha do discurso de sempre "time que está ganhando não deve mudar". A oposição se apresenta como arauto da moralidade pública denunciando os gastos com propaganda, que dariam para construir mais tantas escolas, unidades de saúde e outros serviços. Assim, ganhe situação ou oposição, serão contratados mais professores, mais médicos; serão construídos novos postos, centros e hospitais para todos os ciclos e espaços de vida: Posto de Saúde Rural, Centro de Saúde do Adolescente, Hospital do Idoso e por aí afora. Até parece que a oferta vai disciplinar a demanda aleatória de gente insatisfeita por falta de vínculo com os estabelecimentos, as equipes e os profissionais de saúde, como se a soma das partes resultasse no bom atendimento do todo. Integralidade não é o acesso de todos a tudo, mas o atendimento do indivíduo todo. Indivíduo, é bom recordar, é uma palavra que se constituiu para registro de uma constatação muito simples e essencial, a de que a pessoa é indivisível. Acrescente-se que as comunidades constituem complexidades específicas que, ao serem divididas, mais se enfraquecem do que se revigoram dos males e achaques que as acometem. A complexidade está no desafio de atender a todos com escuta e cuidado adequados à sua individualidade, com integridade e justiça. A complexidade está no todo de cada um e em cada um de todos. As obras, as máquinas de exame, os medicamentos e os computadores ajudam, mas não substituem atenção e cuidado. É preciso cuidar mais e referenciar menos, porque a complexidade não se alcança pela soma das partes, mas pelo respeito à unidade somática, psíquica e social dos indivíduos e das comunidades.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

A Crônica de Hoje

A campanha pelas eleições de prefeitos e vereadores está a menos de 30 dias do escrutínio em todos os municípios do país. Em Brasília assistimos apenas os respingos do Entorno de 22 municípios, 3 mineiros e 19 goianos, dessa campanha que não se realiza no território da Capital Federal. A maioria dos comentários são de alívio que aqui não haja esta etapa no calendário eleitoral, sendo as eleições daqui realizadas de quatro em quatro anos... Eu me pergunto se não seria melhor que houvesse eleições municipais também aqui, embora pouco possa mudar imediatamente na política da corte, pois a freqüência de assembléias gerais eleitorais, reduzida à metade das que ocorrem no país, pode comprometer a evolução de uma agenda política a longo prazo. E mais, quem sabe com eleições municipais intercaladas a política aqui pudesse dar maior atenção aos problemas locais na hora certa e nas eleições estaduais tomasse gosto por questões de maior importância no processo democrático nacional.

domingo, 7 de setembro de 2008

A Crônica de Hoje

O caso da Reserva "Raposa Serra do Sol" em julgamento no Supremo Tribunal Federal, teve pedido de vistas do Ministro Menezes Direito, diante do voto de Ayres Brito em pról dos direitos legítimos dos povos indígenas, ancestrais da nação brasileira, sem meias palavras, sem caminho do meio, com a clarividência de uma iluminação, para por fim de uma vez por todas a esta contenda, segundo o próprio relator em entrevista na véspera. Não há porque temer que 18 mil índios ameacem a soberania e a segurança nacional, nem pela desativação da agricultura alimentar dos rizicultores, tampouco pela fragilidade de nossa fronteira coincidente com os limites territoriais da reserva, pois a fronteira nacional continuará a mesma com franquia para maneabilidade de tropas regulares se algum dia for necessário agir militarmente. A extensão da reserva também não é argumento, quando se verifica que o Brasil tem mais de 850 milhões de hectares de superfície. E não falta onde plantar arroz, mas se plantar arroz for uma escolha dos habitantes autóctones daquela reserva eles também poderão fazê-lo desde logo, tão logo sejam livres para decidir. Vamos aguardar pela decisão após o voto do ministro que pediu vistas, um procedimento legítimo e constante do Regulamento do Supremo Tribunal Federal.

A audiência pública sobre a liberação de aborto em caso de anencefalia, quando a gestante informada assim decidir, foi espaço de advertências de que em seguida seria o direito das mulheres decidirem pelo procedimento em caso de gestação indejesada, como se o receio de cairmos na "ladeira escorregadia" fosse bastante para negligenciarmos o sofrimento de quem vive o drama de vir a ter um bebê sem o encéfalo, sem nenhuma perspectiva de vida. Tanto em se tratando de anencefalia como de gestação indesejada ninguém deve ser ingênuo de pensar que a criminalização atual é garantia de que não se pratique o delito, quando em certas circunstâncias as pessoas se sintam obrigadas a fazer a escolha pela interrupção voluntária. Melhor seria que essa alternativa pudesse ser adotada lícitamente, como um direito de arbítrio sobre o próprio corpo que estará à disposição de quem quer que decida interromper um processo, conforme sua consciência, seus princípios éticos, morais e religiosos, com o máximo de informação, cuidado e segurança, sem o temor de sofrer a penalização prevista atualmente, que se não é aplicada na proporção em que deve estar ocorrendo o delito, tem constrangido as pessoas a práticas negligentes e irresponsáveis aumentando exponelciamente o risco de seqüelas e mortes evitáveis. Sobre este assunto o STF ainda promoverá mais uma rodada de audiência, devendo se manifestar por voto de seus ministros até novembro de 2008, quando ainda algum ministro poderá pedir vistas, regulamentarmente.

Ladeira escorregadia: expressão forjada no debate bioético no sentido de que aprovada uma medida para situações específicas ela poderá se generalizar sem condições de ser negada a outros interessados com base no precedente da aprovação inicial.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

A Crônica de Hoje

Enfim foram 16 dias de jogos, os maoires jogos olímpicos de todos os tempos, 952 medalhas conquistadas. Desde a abertura com a dublagem da menina Lin Miaoke interpretando uma ode patriótica com a voz de Yang Peiyi, a história ancestral da China desprezando os anos da Revolução de 1º de Outubro de 1949, os anfitriões fizeram de tudo para impressionar o mundo com a nova imagem da China! Não só gastaram em infraestrutura desportiva, mas em logística, urbanismo, segurança, preparados inclusive para fazer chover bonbardeando as nuvens. A China obteve primeiro lugar em medalhas de ouro, na frente dos Estados Unidos que conquistaram 36 ouros, conquistou uma centena de medalhas no total, superada somente pelas 110 medalhas dos Estados Unidos. O Brasil conquistou apenas 15 medalhas no total, com profundas frustações, mas também com surpresas agradáveis. No principal, todavia, os chineses não foram nada originais, pois repetiram o espírito performático dos jogos, onde valeu a lei do mais forte, como talvez em todos os jogos olímpicos da chamada Era Moderna. Isto, aliás, é uma responsabilidade não apenas do país anfitrião, mas de todas as nações contemporâneas, ou seja, fazer do esporte um meio privilegiado da integração corpo-mente tão cultivada pela civilização oriental, além do congraçamento e do intercâmbio cultural entre os povos na Era da Globalização. Quem sabe nós brasileiros tenhamos a chance de contribuir para essa renovação dos jogos, alcançando o desiderato de sediar as Olimpíadas de 2016!